14 de maio de 2011

Insolência Quinzenal (Coluna) - "Barricadas de Livros"


Enquanto se teme pelo futuro do livro como suporte das informações escritas eu, sem um pingo de juízo, questiono sua veneração por gente que lê com odor de papel, mofo, poeira, tinta, suor (para quem é protestante, para quem tem sudorese que nem eu, para quem...), coisa nenhuma, qualquer coisa. Como qualquer criatura na face da Terra (com inclusão das antas e das cobras) dá seu pitaco sobre tudo, também, embora com humildade demais (ou não), mando tal livro fetichizado para seu lugar na biblioteca de conteúdos fantásticos e, consequentemente, que não existem.


Voltemos ao passado das tabuinhas feitas com argila. Será que quando passamos a melhor forma de suporte chamada pergaminho "chiamos" pois estaríamos perdendo nossa tão querida tábua juntamente com o seu conteúdo? Não sei. Moisés, Hamurábi, qualquer outra personagem de séculos argilosos talvez usada foi como propaganda para manter a "velha boa tradição"... Venhamos e convenhamos: em algum momento vamos deixar de ler em livros. De papel.

Carmen sem chapéu
Que fazer? Ler em outro lugar. Outro suporte. Claro que só substituiremos o mais usado por hoje no momento que conseguirmos mais vantagens com o novo. Não façamos de carambolas e pitombas algo tão simples. O livro terá seu fim. E tudo também, ora! Coloquemos os frutos da Terra no chapéu mais original feito por Carmen Miranda. Coloquemos os nossos temores infundados nos abismos sem fundo proporcionados tão-só pela racionalidade.

Contudo teimar em temer as novidades é de praxe. Sem qualquer justificativa válida nos apegamos à tradição desnecessária. Fazemos até barricadas de livros em defesa de tal posição tacanha. Por favor: calma! Continuaremos a ler! Abaixo nossas barricadas!

Mas as crianças que podem se viciar com o tempo demasiado na frente do computador? Outra pergunta: mas as cachaças? Beba com moderação! E tantos suportes estão sendo feitos sem precisarem estar ligados a computadores acessíveis a rede mundial... Mil "livros" ou mais cabem em um equipamento leve que pode ser até transportado dentro das algibeiras!

Quê?

Dos bolsos.

Facilitar a vida para ser bem vivida: serviço que nos presta qualquer tralha tecnológica. Ninguém vai ser menos ou mais algo por usar os aparelhos do porvir. Só teremos a comodidade, por exemplo, de transportamos mais em menos: uma biblioteca na mão. Acessibilidade. Mais "ades" favoráveis? Adequados ao que trato sim.

Bom é conhecer coisas velhas? Museus!

Vamos sobreviver a nossa tecnologia certamente. Mas a nós? Isto não sei. Somos seres humanos: complicados portanto. Só podemos nos desejar juízo. Vejo que, diferentemente do que foi dito no princípio deste texto, tenho, depois do que cá já foi dito sobre livros, ao menos um pingo dele. Dito por dito: despedirmos-nos dignamente dos livros algum dia se fará necessário... Que tal?

Imagens: Arquivo Pessoal / Portal Luís Nassif


2 comentários:

  1. salve, Sérgio! legal o texto.
    e o que vc acha dessa opinião?
    http://colunas.epoca.globo.com/menteaberta/2010/05/07/umberto-eco-e-o-futuro-do-livro/

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  2. Jarbas, Salve!

    Na questão do prego do senhor Eco digo que papéis não são tão necessários quanto pregos. Mas ainda mais longe vou propôr: e se também os pregos perderem a serventia por algum dia no futuro? Precisamos ao menos tentar uma visão mais ampla da nossa possível realidade temporal. Vou morrer porém os livros não morrerão comigo. Todavia mais adiante? Quando não sei mas que vão... Vão. Bom frisar que tabuinhas, pergaminhos, papiros... Ainda são usados! Entretanto não temos bibliotecas (em sua maioria) compostas de tais materiais, não?

    Repito: "...só substituiremos o mais usado por hoje no momento que conseguirmos mais vantagens com o novo".

    Nós tememos a tecnologia feita por nós: pode? Bem... Entusiasmo tenho sim com a tralha tecnológica. Só nela consigo vislumbrar algum progresso de nossa parte no cosmos. Ouso dizer isto? Certamente.

    Minha nossa! Só de supôr a minha dificuldade por décadas atrás para conseguir ouvir fado já me faz feliz com o computador que tenho na minha casa. Pedir discos além do mar oceano vem a ser difícil... Todavia mais fácil seria conviver com a comunidade portuguesa do Recife! Não que me desgoste: gosto demais da portuguesada. Porém Ana Bacalhau, Carminho, Cristina Branco, Joana Amendoeira, Kátia Guerreiro, Mafalda Arnauth, Maria Ana Bobone, Mariza, Raquel Tavares... Tantas outras fadistas da nova geração acompanho sem sair um passo fora do meu lar. Posso transformar tal morada numa casa de fado: que tal? A Severa nunca sonharia que chegaríamos tão longe... Nem Amália Rodrigues.

    Enfim só dou minha mão à palmatória quando diz o senhor Eco que mais importante do que discutir o futuro do livro seria debater o futuro da leitura. Sim: eis uma tema mais sério.

    No mais um abraço fraterno.

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