1 de março de 2011

Persépolis - Crítica

(foto:educadordealmas.blogspot.com)
Entender a cultura alheia através de alguém que verdadeiramente a conheceu em sua vida é sempre uma das melhores maneiras de se compreender, sobretudo quando este alguém em questão já mora a tempo suficiente na nossa atual sociedade para facilitar este processo de "tradução" sempre complexo entre duas culturas.

É exatamente esta a maior qualidade da obra em quadrinhos "Persépolis", o livro retrata a vida da autora Marjane Satrapi desde a sua infância onde presenciou os horrores da guerra e as privações do regime que veio após a famosa Revolução iraniana de 1979, todos reconhecem o episódio pois foi graças a ele que o uso dos polêmicos véus tornou-se obrigatório no Irã, obviamente que existiram muitas outras consequências materiais e ideológicas ocorridas no entanto esta tornou-se a mais emblemática para o ocidente.

Com uma narrativa simples e de uma compreensibilidade integral a história se desenvolve de maneira extremamente competente e narra o período conturbado de guerras e revoltas com a sempre bem-vinda narração ingênua e sincera de uma criança.

Os momentos antológicos desta primeira parte do livro são muitos, todo o cotidiano infantil da autora influenciado determinantemente pelo meio onde ela vive nos faz entender diversos dramas referentes a sociedade iraniana de uma contrangedoramente clara.

Num outro momento a autora se muda para outro país e o livro tem um rompimento onde o Irã perde o papel de protagonista oculto e é substituído pelas desventuras e idiossincrasias da autora, tal modificação inicialmente incomoda em razão da radicalidade da transição mas também possui qualidade, e provavelmente o sentimento do leitor que se sente um tanto desamparado pela alteração do enredo manifesta a própria percepção da autora em ver-se num universo e num meio completamente diverso do qual estava habituada.

É claro para o leitor esse misto de diversão que sempre parece trazer algo de importante, aliás muito importante, para a compreensão do mundo é o casamento perfeito que culmina como uma bela e saborosa história para se ler. A dinâmica simples e envolvente não limita o livro aos fãs de hqs, mesmo aqueles que não tem muita simpatia pelo gênero deverão gostar bastante, e talvez acabe servindo como porta de entrada para o até hoje pré-conceitualizado mundo da nona arte.

Finalmente é importante considerar os desenhos, eles são muito simplórios mas possuem um traço claro que de forma alguma prejudica o andamento da obra, novamente vemos mais uma junção bem sucedida no livro, desta vez entre ilustrações e textos.

Assim Persépoilis tornou-se um fenômeno de vendas merecido, porque o complexo desenvolvido de forma desconcertantemente simples pelo livro é comprável ao de grandes mestres com Quino e sua Personagem Mafalda, a diferença e que no caso da de Satrapi não é um humor inspirado em algo que pode ser, e sim constatações de uma realidade que certas vezes provoca o mais sincero riso e em outras vezes profundos lamentos.


Ewerton Gonçalves

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